19 outubro 2009

"O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel."
Platão
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16 outubro 2009


"O ALLgarve fica em Poortugal
O ministro da Economia , Manuel Pinho anunciou que para efeitos de coisas extremamente aborrecidas, que envolvem infra-estruturas do sector da hotelaria, juntas metropolitanas e todo um vasto leque de estupendas iniciativas, criou uma marca, que por sua vez dá o nome a um programa de eventos, chamada Allgarve. A ideia é tornar o Allgarve mais apetitoso e popular em toda a parte, designadamente naquele sítio mítico conhecido como «o estrangeiro». Para isso, juntou uma letra ao nome, com o objectivo de o tornar mais modernaço. Se pensavam que o Allgarve já não podia ficar mais inglês, enganaram-se. Aliás, o mais estranho na nova palavra Allgarve é, sem dúvida, o «garve». Sente-se que aquele resquício de portugalidade arraçada de árabe está a impedir o Allgarve de voar mais alto.
….
Creio mesmo que Portugal inteiro pode mudar de nome para se tornar mais apelativo lá fora. Proponho a nova designação «Poortugal», cujo prefixo pode dar a entender aos turistas estrangeiros que o custo de vida cá, é baixo, e que fazem umas férias bem boas com meia dúzia de tostões."

in "Boca do Inferno" de Ricardo Araújo Pereira

07 outubro 2009

BookCrossing - Wild release

Aeroporto Charles de Gaulle em Paris, França - libertei (wild release) o livro "Le Vent qui Siffle dans les Grues" da escritora portuguesa Lídia Jorge, em junho de 2009

BookCrossing - Wild release

Aeroporto de Brnik, Eslovenia - libertei (wild release) o livro "Um Coração Simples" de Gustav Flaubert, em junho de 2009

02 outubro 2009

Mulher em Tons de Tango


"O tango ficava a ganhar se fosse dançado com raiva. Havia outras danças que requeriam pés ágeis mas não venenosos. Em contrapartida, neste ritmo tão saltitante filtrava-se um rancor. Mireya fechou os olhos e deixou-se levar para um mundo sem cores, a preto e branco, onde o homem e a mulher ficavam reduzidos aos seus traços essenciais, rigorosos como dois algarismos. O homem fazia o contrário da mulher. Outros passos. Mas não era exactamente o oposto. Nunca eram simétricos. Não eram como reflexos num espelho. As imagens dele nela e dela nele pareciam distorcidas. Se se pudesse falar de espelho, seria de um espelho quebrado. Dançavam frente a frente duas pessoas desconhecidas que se contemplam perfeitamente no seu desconhecimento mútuo. A harmonia do desencontro. Eles não eram sequer o oposto um do outro. Eram uma fractura do reflexo e o seu único terreno de entendimento, uma linha de fuga."
in "Mulher em Tons de Tango" de Alicia Dujovne Ortiz

28 setembro 2009

"Imaginem um mundo onde o tempo não existe. Só imagens."
Alain Lightman
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26 setembro 2009

Os Insolentes

"Mais uma vez, depois da partida de Louise, a solidão instalou-se no prado estreito que a sombra preenchia. Realmente a noite levou tempo a instalar-se, mas para Maud a sua investida foi brutal e decisiva. Pensou que de repente acordara na escuridão. Brilhavam luzes ao longe, no horizonte. Já não se ouviam os pássaros, mas, do matagal ali à volta, chegava o gri-gri dos grilos e sons de fuga misteriosa. Ouviu um assobio muito ao longe: era o comboio para Bordéus, o das nove. De costume, quando era pequena, era numa cozinha quente ou durante um serão pacífico que ouvia assim o apelo da locomotiva. Assobiava por diversas vezes, com intervalos regulares, separados por verdadeiros abismos de silêncio, no fundo do qual pareciam esconder-se perigos obscuros, ameaças surdas. O comboio descia o declive do planalto, em direcção ao Semoic, com um ranger infernal de ferro-velho. A curva era perigosa, sempre mergulhada em bruma e disfarçada pelos álamos de Uderan. Imaginava-se o aparecimento daquele monstro como se a bruma e os bosques dessem à luz."

in "Os Insolentes" de Marguerite Duras

18 setembro 2009

"Senti-me inquieto já. De repente, o silêncio deixara de respirar."
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
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17 setembro 2009

O Principezinho


«Mas ele não respondeu à minha pergunta. Disse:
- O que é importante, não se vê…
- Pois não…
- É como com a flor. Quando se ama uma flor que está plantada numa estrela, é bom olhar para o céu, à noite. É que todas as estrelas ficam floridas…
- Pois ficam.
- E é como com a água. A que tu me deste de beber era como uma música, por causa da roldana e da corda… Lembras-te?... Era tão boa!
- Pois era…
- Depois, à noite, pões-te a olhar para as estrelas. A minha é pequenina demais para se ver daqui. Mas é melhor assim: para ti, a minha estrela vai ser uma estrela qualquer. Assim gostas de olhar para as estrelas todas… Todas elas serão tuas amigas. E agora vou dar-te uma prenda!
E voltou a rir.
- Ah, meu menino, meu menino, como eu gosto de ver esse teu riso!
- É precisamente a minha prenda… É como com a água…
- O que é que isso quer dizer?
- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para os viajantes, as estrelas são guias. Para os outros, não passam de luzinhas. Para outros, os cientistas, são problemas. Para o meu homem de negócios, eram ouro. Mas todas essas estrelas estão caladas. Tu, tu vais ter estrelas como mais ninguém…
- O que é que isso quer dizer?
- À noite, pões-te a olhar para o céu e, como eu moro numa delas, como eu me estou a rir numa delas, para ti, é como se todas as estrelas se rissem! Vais ser a única pessoa do mundo que tem estrelas capazes de rir!
E voltou a rir.
- E quando te tiveres consolado (porque acabamos sempre por nos consolar), hás-de sentir-te muito contente por me teres conhecido. Hás-de ser sempre meu amigo. Vai-te apetecer rir comigo. E, às vezes, sem mais nem menos, vai-te dar para abrir a janela, só porque é bom… E os teus amigos vão ficar de boca aberta quando te ouvirem rir a olhar para o céu. Mas tu dizes-lhes: “ Pois é! As estrelas sempre me deram vontade de rir!” E eles ficam a pensar que tu estás maluco. Rica partida que eu te vou pregar, não é?»

in "O Principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry

12 setembro 2009

To: Ri

Happy Birthday to You
" Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes."
Um universo de beijinhos de Parabéns!

11 setembro 2009

Recepção ao Caloiro


«"Colegas do desespero"
Todos nós constituimos uma "vizinhança" do "aberto" que é a Matemática e como já vem sendo "norma" nesta altura, pretendemos, com "demonstrações" deste género, "reparametrizar" a ideia de que uns são mais vizinhos do que outros, quando na realidade deveriamos constituir cada um, "de per si", o centro de um "aberto" cuja intersecção", pretendendo-se "infinita", seja ainda um "aberto", onde não existem "distâncias" mas sim "isomorfismos".
Constituamos pelo menos hoje, uma "família" onde os "grupos" se misturem, de maneira a transformarem-se num "ideal primo" da boa convivência e camaradagem.
Que todos nós sejamos "operadores" dessa alegria que se pretende, definindo um "produto interno" que se mantenha indefinidamente não nulo e "estritamente positivo".
Desesperadamente,
Os Desesperados »
Será que estas palavras de um discurso de Recepção ao Caloiro, há muitos anos na FCTUC, ainda estão na memória de alguém?

09 setembro 2009

Cinco Quartos de Laranja

"Já estão a ver como tudo começou tão inocentemente. A nossa intenção nunca foi magoar ninguém e, contudo, há dentro de mim um sítio duro que se lembra implacavelmente e com perfeita precisão. A mãe percebeu os perigos antes de qualquer um de nós. Eu era tão escorregadia e instável como a dinamite. Ela percebeu isso e, à sua maneira estranha, tentou proteger-me mantendo-me perto dela, mesmo quando teria preferido o contrário. Eça percebia mais do que eu imaginava.
Não que isso me importasse. Tinha o meu próprio plano, um plano tão complexo e cuidado como as armadilhas no rio para o lúcio. Houve uma altura em que pensei que o Paul adivinhara mas, se assim foi, ele nunca disse nada. Começos modestos, que levaram a mentiras, a enganos e a pior.
Tudo começou com uma banca de fruta numa manhã de sábado no mercado. Foi a cinco de Julho, dois dias depois de ter feito nove anos.
Tudo começou com uma laranja.”

in "Cinco Quartos de Laranja" de Joanne Harris

01 setembro 2009

Relíquia


"Margo continuou nessa penumbra, movendo a lanterna pelo corredor, tentando deliberadamente, ver o monstro que deveria estar acocorado num canto a observá-los.
«Ainda não» murmurou Pendergast. «Espere até se mostrar plenamente.»
A criatura parecia estar quieta durante o que lhes pareceu uma eternidade, em silêncio, como uma gárgula de pedra. Margo podia vislumbrar os pequenos olhos vermelhos que a observavam na escuridão. Uma vez por outra, esses olhos desapareciam, para depois voltarem a aparecer, à medida que a criatura ia pestanejando.
Em seguida, o monstro deu outro passo, depois voltou a parar, como se para se decidir, com o corpo agachado, tenso e pronto a investir.
Começou então a avançar, na direcção deles, com terríveis saltos.
»Agora!» gritou Pendergast.
Margo tentou agarrar o capacete de mineiro e o corredor ficou subitamente banhado de luz. Quase de imediato sentiu um enorme BUM! À medida que a pistola de Pendergast ia disparando ao lado dela. O monstro parou, por instantes, e Margo conseguia vê-lo a pestanejar, abanando a cabeça diante da luz. Voltou-se então para trás, como se para morder a parte por onde a bala tinha passado. Margo sentiu uma profunda sensação de irrealidade: a cabeça do monstro surgia-lhe agora pálida e horrivelmente alongada, a marca da bala de Pendergast era apenas um risco branco por cima dos olhos, as poderosas patas da frente estavam cobertas com uma pelagem espessa e terminavam em longas garras; as patas de trás eram de pele enrugada e terminavam em cinco dedos."
in "Relíquia" de Douglas Preston & Lincoln Child

21 agosto 2009

"São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas."
Eugénio de Andrade
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