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15 abril 2013

Heróis à Moda de Lisboa


"Alfacinha - Habitante de Lisboa; natural de Lisboa. Existem várias versões para explicar esta denominação dada aos naturais de Lisboa, mas a principal versão refere um hábito antigo da Lisboa burguesa de fins do séc. XIX. Em pleno romantismo, as famílias da classe média lisboeta tinham o costume, quase compulsivo, de, nas tardes solarengas de Domingo, se reunirem em almoçaradas pelas inúmeras hortas que existiam nos arredores da capital. Aí, acompanhando com o tradicional peixe frito, parece que se consumiam quantidades absurdas de salada de alface. Ora este hábito tornava-se tão peculiar quanto pitoresco aos olhos de quem vinha de fora da cidade. Na verdade, o consumo da alface era então pouco difundido pelo resto do país e esta moda foi estranhada e até caricaturada. "
in "Heróis à Moda de Lisboa"

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Livro de vários autores (na maioria Bookcrossers) que contam, de uma forma humorística, as histórias de Lisboa usando gíria e calão. No final está incluído um dicionário alfacinha com a explicação dos vocábulos utilizados.

20 março 2013

O Adeus às Armas


"Continuámos a comer. Ouviu-se um ruído que parecia tosse, ou de uma locomotiva a pôr-se em movimento, e em seguida uma explosão que abalou novamente a terra.
- Este abrigo é pouco profundo – disse Passini.
- Foi um grande morteiro de trincheira.
- Foi, sim, senhor.
Comi o resto do meu pedaço de queijo e bebi mais um gole de vinho. No meio do barulho distingui novamente aquela tosse, depois o tchu-tchu-tchu-tchu – e de súbito um relâmpago como quando se abre de repente a porta de uma fornalha de fundição, um ribombar, branco primeiro, depois vermelho, num súbito revólver de ar. Procurei respirar, mas senti a respiração cortada, pareceu-me sair para fora de mim, cada vez mais, mais para fora, envolvido naquela ventania. Todo o meu ser fugia rapidamente, e sabia que estava morto e que era um erro supor que se morria e estava acabado; depois tive a impressão de flutuar, e em vez de ir para a frente senti-me recuar. Respirei e tinha voltado a mim. O solo estava todo revolvido e diante da minha cabeça havia uma trave despedaçada. Na confusão da minha cabeça ouvi alguém chorar. Pensei que fosse alguém a gritar. Procurei mover-me mas não pude. Ouvi as metralhadoras e as espingardas disparando do outro lado e ao longo do rio. Houve um grande clarão e os foguetões subiram, rebentaram, flutuaram, brancos, no ar, os morteiros ergueram-se e eu ouvi as granadas, tudo isto num momento, e então ouvi alguém dizer junto de mim: << Mamma mia! O mamma mia! >>

in "O Adeus às Armas" de Ernest Hemingway
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A Farewell to Arms - título original deste romance que tem a particularidade de o seu autor ter escrito 47 finais diferentes até encontrar "as palavras certas", segundo o que ele referiu numa entrevista.
Em 2012, foi editado um livro, nos EUA, que inclui os finais imaginados por Hemingway, bem como rascunhos e anotações de outras passagens do livro.

15 março 2013

A Morte Feliz

"Entre o vermelho do fogo, a palpitação do despertar da sala e a vida secreta dos objectos familiares que a povoavam tecia-se um poema, uma fuga, que predispunha Mersault a aceitar com um ânimo diferente, com confiança e amor, aquilo que Zagreus ia dizer-lhe. Recostou-se no cadeirão, e, de olhos fitos no céu, começou a ouvir a estranha história de Zagreus.
- Tenho a certeza – começara ele – de que se não pode ser feliz sem dinheiro. Não tenho dúvidas sobre isso. Não gosto da facilidade, nem dos romantismos. Gosto de saber como são as coisas. Pois bem, tenho notado que em certas pessoas de escol existe uma espécie de snobismo espiritual quando afirmam que o dinheiro não faz a felicidade. Parvoíce. Mentira. E, em certa medida, cobardia. Ora veja, Mersault, para um homem bem-nascido, ser feliz nunca foi complicado. Basta seguir o destino de toda a gente, não por desistência ou renúncia, como é o caso de tantos falsos grandes homens, mas com uma apetência de felicidade. A única coisa de que se precisa para se ser feliz é de tempo. Muito tempo. A felicidade é, ao fim e ao cabo, uma questão de longa paciência. E quase sempre passamos a vida a ganhar dinheiro, quando o que era preciso era ganhar tempo através do dinheiro. Esse é o único problema que sempre me interessou. É um problema preciso e claro."

in "A Morte Feliz" de Albert Camus
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Albert Camus, escritor nascido na Argélia e galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1957, é o autor deste romance que foi publicado postumamente. Após a morte de Camus vários documentos foram reunidos e publicados englobando o que se chamou Carnets Albert Camus. A Morte Feliz foi o primeiro volume, desses cadernos, a ser publicado.  

21 fevereiro 2013

Cemitério de Lunáticos II


"- Jesus! Estamos mesmo à beirinha da nossa primeira luta de pesos pesados a sério. Recua.
- Reconheceste-a?
- Tinha olhos. E os olhos não se modificam.
- Pára com isso! - berrou ela.
- Okay - resmunguei. - Já parei.
- Pronto, aí tens. - Mais lágrimas voaram, semelhantes a diminutos cometas. - Já te amo outra vez. - Esboçou um sorriso batido pelo vento, o cabelo a emaranhar-se e a soltar-se sob a acção da corrente de ar, que nos banhava com uma brisa fria por cima do pára-brisas. Todos os ossos do meu corpo se derreteram perante aquele sorriso. Meus Deus, pensei, então ela não venceu sempre, todos os dias, durante toda a sua vida, com aquela boca e aqueles dentes e aqueles grandes olhos falsamente inocentes?
- Pois foi! - riu-se Constance, adivinhando-me os pensamentos.
- E olha agora - disse-me.
Parou de repente diante dos portões dos estúdios. Ergueu o olhar por um longo momento.
- Ah, meu Deus! - acabou por proferir. - Não é hospital nenhum. É onde as ideias do grande elefante vão morrer. Um cemitério para lunáticos."

in "Cemitérios de Lunáticos" de Ray Bradbury

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"Cemitério de Lunáticos" é uma obra de ficção, mistério, suspense e um ambiente irreal que são características dos livros deste escritor que ficou celebrizado pelo seu livro "Fahrenheit 451".

09 fevereiro 2013

Comer Orar Amar


"- Não me estou a rir. - na verdade, estava a chorar. - e por favor não te rias  de mim agora, mas acho que a razão pela qual me é tão difícil esquecê-lo é porque acreditava mesmo que o David era a minha alma gémea.
- Provavelmente era. O teu problema é que não compreendes o que significam essas palavras. As pessoas pensam que uma alma gémea é o par perfeito e é isso que toda a gente quer. Mas uma verdadeira alma gémea é um espelho, uma pessoa que te mostra tudo aquilo que te retém, a pessoa que faz com que te centres em ti mesma para que possas mudar a tua vida. Uma verdadeira alma gémea é provavelmente a pessoa mais importante que alguma vez conhecerás porque deita abaixo as tuas defesas e desperta a tua consciência. Mas viver com uma alma gémea para sempre? Não. É demasiado doloroso. As almas gémeas entram na nossa vida para nos revelarem uma outra camada de nós mesmos e depois vão-se embora. E graças a Deus que assim é."
in "Comer Orar Amar" de Elizabeth Gilbert

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Comer Orar Amar de título original Eat Pray Love
Uma leitura que soube muito bem pois o livro tem um registo completamente diferente dos últimos que li. Foi como um break. A procura "O que quero para mim?" e "Para onde vou?" não foi  fastidiosa mas sim um relato de viagem interessante de uma mulher a tentar encontrar-se.
Um livro que deu para apreciar tanto em ambiente de início de noite como num dia de sol à beira-mar. 

19 dezembro 2012

Um cântico de Natal

"Era um jogo chamado Sim e Não, em que o sobrinho de Scrooge tinha de pensar em algo e os outros tinham de adivinhar o que era; ele só podia responder sim ou não às perguntas deles, conforme o caso. O bombardeamento de perguntas a que foi sujeito esclareceu que ele estava a pensar num animal, um animal vivo, um animal bastante desagradável, um animal selvagem, um animal que, por vezes, rugia e grunhia, e às vezes falava, e vivia em Londres, e caminhava pelas ruas, e não era exibido, e não era conduzido por alguém, e não vivia numa jaula, e jamais havia sido morto num mercado, e não era um cavalo, ou um burro, ou uma vaca, ou um touro, ou um tigre, ou um cão, ou um porco, ou um gato, ou um urso. A cada nova pergunta que lhe era colocada, este sobrinho rebentava de riso; e estava tão inexplicavelmente divertido que se viu obrigado a sair do sofá e afastar-se. Por fim, a roliça irmã, em excitação semelhante, gritou:
- Descobri! Eu sei o que é, Fred! Eu sei o que é!
- O que é? - perguntou Fred.
-  É o teu tio Scrooge!"

in " Um cântico de Natal" de Charles Dickens

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Com o título original: A Christmas Carol, publicado pela primeira vez em 19 de Dezembro de 1843, tornou-se num dos clássicos de Natal mais conhecido de todos os tempos. 

23 novembro 2012

Cemitério de Lunáticos I

"E lá estavam de facto eles.
Os lunáticos. Os imbecis. Os idiotas.
Essa molede adoradores, postados perante o relicário que eram os estúdios.
Bem à maneira dos viajantes da madrugada, que em tempos me haviam acotevelado no ataque aos camarotes do Hollywod Legium Stadium, a fim de vermos Cary Grant passar a correr, ou Mae West ondular pelo meio da multidão, como uma boa de penas sem ossos, ou então Groucho, oculto por Johny Weissmuller, que arrastava Lupe Velez atrás de si como se fosse uma pele de leopardo.
Os chalados, entre as quais a minha pessoa, munidos de grandes álbuns de fotografias, as mãos manchadas empunhando pequenos cartões garatujados. Os doidinhos, que se mantinham alegremente, encharcados em chuva, à porta do teatro onde decorria a première de Dame ou Flirtation Walk, enquanto a Depressão prosseguia, ainda que Roosevelt afirmasse que ela não poderia durar para sempre e que os Dias Felizes haveriam de voltar. 
Os predadores, os chacais, os demónios, os viciados, os tristes, os perdidos.
Em tempos, também eu fizera parte deles.
E agora ali estavam. A minha família."

in "Cemitério de Lunáticos" vol I de Ray Bradbury

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Cemitério de Lunáticos foi a minha leitura pelas nuvens na minha viagem a Moscovo.

09 setembro 2012

readings...

"readings" ao sabor do mar... o marulhar da ondulação... a maresia... o sol...
conjugação de elementos perfeita que criou um ambiente mais que perfeito para todos os sentidos J

30 agosto 2012

Fahrenheit 451


"Montag mostrou-lhe o livro:
- É o Antigo e o Novo Testamento, e...
-Ah! Vais começar!
-É talvez o último exemplar que existe nesta parte do mundo.
- Não creio que ele saiba que livro roubei eu. Mas como escolher um substituto? dar-lhe-ei Jefferson? Thoreau? Qual o que tem menos valor? Se escolho um e, por acaso, Beatty sabe qual roubei, vai pensar que eu tenho uma biblioteca inteira.
Mildred crispou os lábios.
- Vê lá o que fazes! Estás a meter-nos num bom sarilho! Que é que te interessa mais, eu ou a Bíblia?
Ela começou a chorar, sentada como uma boneca de cera que derrete com o próprio calor. A Montag parecia-lhe ouvir a voz de Beatty.
- Senta-te Montag. Olha bem. Delicadamente como às pétalas de uma flor. Deita fogo à primeira página, depois à segunda. Cada uma se transforma numa borboleta negra. Anda, hem? Acende a primeira página na segunda e assim sucessivamente, umas atrás das outras, capítulo por capítulo, todas essas noções absurdas que as palavras evocam, todas falsas promessas, todas essas ideias em segunda mão e essas filosofias antiquadas.
Beatty lá estava, transpirando ligeiramente, o chão juncado de fragmentos negros que tinham sucumbido numa única tempestade."

in "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury

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"Fahrenheit 451 - a temperatura a que um livro se inflama e consome..."
É com estas palavras que o escritor inicia o seu livro publicado em 1953. Ray Bradbury ficou celebrizado com este romance que foi adaptado ao cinema por François Truffaut

17 agosto 2012

O Deus das Moscas


 
"A maré subia e havia apenas uma faixa de praia entre a água e a refuga branco e obstrutor, junto do terraço do palmar. Rafael escolhe a faixa dura para o seu piso, pois necessita de pensar, e só aqui pode mover os pés sem ter de os observar. De súbito, caminhando à borda-de água, sente-se esmagado de surpresas. Descobre que compreende o tédio da sua existência, em que cada caminho é uma improvisação, e uma considerável parte do tempo em que está acordado é consumida em ver onde põe os pés. Detém-se diante da faixa, e, ao relembrar aquela primeira exploração entusiástica, como se ela fizesse parte de uma infância mais deleitosa, sorri escarninho. Volta-se e dirige-se para o terraço, suportando o sol na cara. Chegara a hora da reunião, e, enquanto caminha ao encontro dos esvaecentes esplendores solares, reconsidera cuidadosamente os pontos, do seu discurso. Não deveria haver qualquer engano nesta reunião, nenhuma corrida atrás do imaginário... Perde-se num novelo de pensamentos, que se tornam vagos por falta de palavras para os exprimir. Franzindo a testa, tenta de novo."

in "O Deus das Moscas" de William Golding
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"Lord of the Flies", título original de "O Deus das Moscas", foi publicado pela primeira vez em 1954 e foi a primeira novela deste escritor.
William Golding foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1983.

25 julho 2012

A Tia Júlia e o Escrevedor


"Disse-lhe que a tia Julia não era mais um cata-vento frívolo como ela (o que realmente lhe encantou). Mas a mesma pergunta já a fizera eu várias vezes. Tinhamo-nos sentado em frente ao mar, num parquezinho belo com um nome impronunciável (Domodossola ou qulquer coisa assim) e ali, abraçados, a beijarmo-nos sem tréguas, tivemos a nossa primeira conversa sobre o futuro.
- Sei tudo com pormenores, vi numa bola de cristal - disse-me a tia júlia, sem a menor amargura. - Na melhor das hipóteses o nosso caso duraria três anos, talvez uns quatro, quer dizer, até encontrares a miúda que vai ser a mamã dos teus filhos, Então mandas-me embora e terei de seduzir outro cavalheiro. E aparece a palavra "Fim". "

in "A Tia Júlia e o Escrevedor" de Mario Vargas Llosa
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Este romance de Vargas Llosa, que se desenvolve em dois níveis que correm paralelos numa perfeita alternância, é o primeiro livro que leio deste escritor.

22 junho 2012

O que diz Molero

"... e isto tem muito que se lhe diga, é o que diz Molero, há os que tomam o peso à palavra, os que lhe medem o comprimento e a altura, os que cheiram a palavra, os eu espreitam para dentro dela, os que se empoleiram nela, os que a trazem às costas, os que a limpam constantemente, que a guardam avaramente na algibeira, que dormem com ela debaixo do travesseiro, que a colam ao céu da boca, que andam na rua com ela a dançar à frente dos olhos e depois dão com a cabeça num candeeiro, que tomam posse dela, de preferência à luz das estrelas, e depois deitam-na fora sem mais nem menos, esta palavra já está, agora venha outra, e há os outros, aqueles que amontoam palavras, que estão atulhados de palavras, caem-lhes palavras do bolso quando tiram o lenço com um gesto abrupto, e cada folha tem um nome, e cada grão de areia também tem, e as palavras que existem já não chegam, fazem palavras novas com tudo o que aparece, tiram palavras do ombro quando sacodem a poeira, e depois nascem palavras por geração espontânea, são já as palavras que se escrevem a si próprias, umas puxam as outras, nunca mais acaba, e há aquela história, um pouco à Kafka, do homem que se fechou por dentro enquanto as palavras se amontoavam do lado de fora da porta, espalhavam-se pela escada e chegavam à rua, apoderavam-se da cidade e do país, faziam pressão sobre a porta, o homem colocava cadeiras e mesas do lado de dentro para as palavras não entrarem, nunca se chegou a saber o fim desta história, …"

in "O que diz Molero" de Dinis Machado
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Este livro é o meu primeiro contacto com a escrita de Dinis Machado; interessantíssima a sua escrita.

12 junho 2012

mini mini livro



"Os meus direitos fundamentais na União Europeia" é o meu livro mais pequeno, que é o mesmo que dizer, o meu mini mini livro visto as suas dimensões serem diminutas, como se pode constatar pela imagem. Tem somente 2,5cm x 3,2cm.
Mas, como ser pequeno nunca significou ser menos importante, ele comporta 54 artigos que constituem a "Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia". Com uma letra quase microscópica, inicia com o "Artigo 1º. - Dignidade do ser humano" e finaliza com o "Artigo 54º. - Proibição do abuso de direito".

06 junho 2012

A Mancha Humana

"Ouvia, ao longe, o som das danças de Rachmaninoff que vinha do Alpendre, mas tirando isso era como se estivesse ali sozinho, profundamente embrenhado nas dobras daqueles montes verdes. Sentei-me na relva, estupefacto, incapaz de explicar o que estava a pensar: ele tem um segredo. Este homem idealizado de acordo com os mais convincentes e credíveis traços emocionais, esta força com uma história tal, este homem benignamente astucioso, suavemente encantador e aparentemente viril em todos os aspectos, tem, no entanto, um segredo imenso. Como chego a esta conclusão? Porquê um segredo? Porque está ali, sente-se, quando ele está com ela. E também quando não está com ela. É no segredo que reside o magnetismo dele. O que fascina é qualquer coisa que não está ali, e é isso que me tem atraído desde o princípio, o enigmático não sei quê que ele manteém à parte, que reserva como seu e de mais ninguém. organizou-se como a lua, para ser só metade visível. E eu não posso torná-lo totalmente visível. Há um espaço em branco. É só isso que sei. Eles são, juntos, um par de espaços em branco. Há um espaço em branco nela e, apesar do seu ar de homem firmemente estável e até, sendo preciso, um adversário obstinado e decidido - o colérico gigante da universidade que preferiu demitir-se a aceitar os humilhantes disparates dos seus pares -, há também, algures, um espaço em branco nele, uma rasura, uma excisão, embora eu não faça a mínima ideia do quê... "

in "A Mancha Humana" de Philip Roth  

20 maio 2012

O Alquimista


"Quando tirou o casaco, pensando em dá-lo de presente a um rapaz da rua, as duas pedras rolaram pelo chão: Urim e Turim.
O rapaz então lembrou-se do velho rei, e ficou surpreendido ao aperceber-se há quanto tempo não pensava nisso. Durante um ano tinha trabalhado sem parar, pensando apenas em conseguir dinheiro para não voltar de cabeça baixa para Espanha.
«Nunca desistas dos teus sonhos», tinha dito o velho rei. «Segue os sinais.»
O rapaz apanhou Urim e Turim do chão, e teve novamente aquela estranha sensação de que o rei estava perto. Trabalhara duramente durante um ano, e os sinais indicavam que agora era o momento de partir.
«Vou voltar exactamente a ser como dantes», pensou o rapaz. «E as ovelhas não me ensinaram a falar árabe.»
As ovelhas, entretanto, tinham-lhe ensinado uma coisa muito mais importante: que havia uma linguagem no mundo que todos compreendiam, e que o rapaz utilizara durante todo aquele tempo para fazer a loja progredir. Era a linguagem do entusiasmo, das coisas feitas com amor e com vontade, em busca de algo que se desejava ou em que se acreditava. Tânger já não era uma cidade estranha, e ele sentiu que, da mesma maneira que tinha conquistado aquele lugar, poderia conquistar o mundo.
«Quando alguém quer uma coisa, todo o Universo conspira para que possa realizá-la.», tinha dito o velho rei."
in "O Alquimista" de Paulo Coelho

05 maio 2012

O Amor és tu

"...
falas o dialecto esquecido nas linhas que mais tarde servirão para fazer as letras
sabes sempre de cor o que dizer e dizes sempre outra coisa
dás solução a todos os enigmas e fazes outros no preciso momento
a tua graça inventou o riso
urge um mago para te decifrar
subiste ao mais alto não sei onde
ditaste de lá a distancia
soube-se aí o que nos separa das estrelas"

in "O Amor és tu" de João Negreiros

23 abril 2012

Dia Mundial do Livro

(The Book Tree - Salvador Dalí)

"O que é um livro que não sabe levar-nos para além de todos os livros?"
Friedrich Nietzsche

mix(imagem+texto) by Moonshine

27 março 2012

António Tabucchi

"A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são migalhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatujas, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas."

António Tabucchi

23 março 2012

O Amor nos Tempos de Cólera

"Passou outra semana irreal, sem poder concentrar-se em nada, a comer mal e a dormir pior, a tentar perceber sinais cifrados que lhe indicassem o caminho da salvação. Mas a partir de sexta-feira invadiu-o uma tranquilidade sem motivos que interpretou como um prenúncio de que nada de novo aconteceria, que tudo quanto havia feito na vida fora inútil  e não tinha maneira de continuar: era o fim. Na segunda-feira, porém, ao chegar à sua casa, na Rua das Janelas, deu com uma carta que flutuava na água empoçada no saguão e reconheceu imediatamente no sobrescrito molhado a caligrafia imperiosa que tantas mudanças na vida não tinham feito mudar e até acreditou reconhecer o perfume nocturno das gardénias murchas, porque o coração já lhe dissera tudo logo ao primeiro assombro: era a carta que esperara, sem um momento de sossego, durante mais de meio século."

in "O Amor nos Tempos de Cólera" de Gabriel García Márquez

07 março 2012

Dewey


"Mas não era só de aspecto que ele era bonito; era também a sua personalidade. Qualquer pessoa que gostasse minimamente de gatos tinha de lhe pegar. Havia qualquer coisa na cara dele, na maneira como olhava para nós, que atraía o amor.
- Ele gosta de ser embalado – disse, transferindo-o para os braços de Mary. Não, de costas. Exactamente. Como um bebé.
- Um bebé de meio quilo.
- Acho que nem sequer deve pesar tanto.
O gatinho abanou a cauda e aninhou-se nos braços de Mary.
Viemos a descobrir que afinal não era só no pessoal da biblioteca que ele confiava instintivamente; confiava em toda a gente.
- Oh, Vicki – disse Mary. – É adorável. Como se chama?
- Estamos a chamar-lhe Dewey. Por causa da Classificação Decimal de Dewey. Mas ainda não nos decidimos por um nome.
-Olá, Dewey. Gostas da biblioteca? – Dewey olhou para Mary e encostou a cabeça ao braço dela."

in "Dewey - O gato que comoveu o mundo" de Vicki Myron