02 fevereiro 2011

Todos os Nomes


"O Sr. José não se encontra nos últimos degraus de uma escada altíssima, olhando para baixo e observando como eles se vão tornando cada vez mais estreitos até se reduzirem a um ponto a tocar no chão, mas é como se o seu corpo, em lugar de reconhecer-se uno e inteiro na sucessão dos instantes, se encontrasse repartido ao longo da duração destes últimos dias, da duração psicológica ou subjectiva, não da matemática ou real, e com ela se contraísse e dilatasse. Sou definitivamente absurdo, repreendia-se o Sr. José, o dia já tinha vinte e quatro horas quando foi decidido que as tivesse, a hora tem e sempre teve sessenta minutos, os sessenta segundos do minuto vêm desde a eternidade, se um relógio começa a atrasar-se ou a adiantar-se não é por defeito do tempo, mas da máquina, o que eu devo ter, portanto, é a corda avariada. A ideia fê-lo sorrir frouxamente, Não sendo o desarranjo, pelo menos que eu saiba, na máquina do tempo real, mas na mecânica psicológica que o mede, o que eu deveria fazer era procurar um psicólogo que me reparasse a roda de escape. Sorriu outra vez, depois ficou sério, O caso resolve-se mais facilmente do que isso, aliás ficou arrumado por natureza, a mulher está morta, não há mais nada a fazer, guardarei o processo e o verbete se quiser ficar com uma recordação palpável desta aventura, para a Conservatória Geral será como se a pessoa não tivesse chegado a nascer, provavelmente ninguém virá a precisar destes papéis, também posso ir deixá-los em qualquer parte do arquivo dos mortos, logo à entrada, junto com os mais antigos, aqui ou além dá no mesmo, a história é igual para todos, nasceu, morreu, a quem vai agora interessar quem tenha sido, ..."

in "Todos os Nomes" de José Saramago 

30 janeiro 2011

23 janeiro 2011

(Auguste Rodin)

"Desmaiei um bocado da minha vida. Volto a mim sem memória do que tenho sido, e a do que fui sofre de ter sido interrompida. Há em mim uma noção confusa de um intervalo incógnito, um esforço fútil da parte da memória para querer encontrar a outra. Não consigo reatar-me. Se tenho vivido, esqueci-me de o saber." 

in "Livro do Desassossego" de Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
mix (imagem+texto) by Moonshine

22 janeiro 2011

O General no seu Labirinto

"A verdade era que até os seus amigos mais íntimos não acreditavam que deixasse o poder nem o país. A cidade era demasiado pequena e as suas gentes demasiado intrometidas para não conhecerem as duas grandes falhas da sua viagem incerta: que não tinha dinheiro suficiente para chegar onde quer que fosse com um séquito tão numeroso, e que tendo sido presidente da república não podia sair do país antes de um ano sem uma autorização do Governo, e nem sequer tivera a astúcia de a solicitar. A ordem de fazer as malas, que ele deu de uma forma ostensiva para ser ouvido por quem quisesse, não foi entendida como uma prova concludente nem mesmo por José Palácios, pois noutras ocasiões tinha chegado ao extremo de desmantelar uma casa para fingir que se ia embora, e sempre fora uma manobra certeira. Os seus ajudantes militares sentiam que os sintomas de desencanto eram demasiado evidentes no último ano. No entanto, acontecera outras vezes, e no dia menos pensado viam-no acordar com ânimo novo, para retomar o fio da vida com mais ímpeto do que antes. José Palácios, que sempre seguira de perto estas mudanças imprevisíveis, dizia à sua maneira: "O que o meu senhor pensa, só o meu senhor sabe." As suas renúncias frequentes constavam do cancioneiro popular, desde a mais antiga, anunciada com uma frase ambígua no próprio discurso com que assumiu a presidência: "O meu primeiro dia de paz será o último do poder." Nos anos seguintes voltou a renunciar tantas vezes, e em circunstâncias tão díspares, que nunca mais se soube quando era certo."

in "O General no seu Labirinto" de Gabriel García Márquez

16 janeiro 2011

Livro


"Nas suas mãos, a cor da capa estava esbatida pela quantidade de tempo que tinha passado fechado na mala, enquanto olhar para ele a magoava. O peso parecia diferente, a sua realidade era diferente da sua lembrança, da sua cicatriz. Assim, sentiu ainda um tremor antigo quando arrumou o livro na mala, ao lado do pequeno farnel embrulhado num guardanapo de pano, ao lado da carteira, das chaves. E, na madrugada seguinte, levou-o consigo para a biblioteca.
Havia de ganhar coragem.
Ao terceiro dia, respirou e, quando acreditou que ia começar a ler, houve alguma coisa que a distraiu, uma empregada da biblioteca que a chamou para lhe falar de um assunto das casas de banho, os espelhos, e só voltou ao livro, quando já era hora de sair. Estava na mesa onde o tinha deixado e admirou-se, escancarou a boca. O livro estava mexido. Alguém o tinha aberto numa página, número 224, e feito pequenos círculos a lápis, à volta das seguintes palavras: gosto, de, ti. Três palavras distribuídas pela página com círculos à volta. Olhou em redor e, ao longe, entre pessoas distraídas, viu o leitor de livros da biblioteca a fixá-la. Desviou o olhar, guardou o livro na mala e saiu. De repente, estava na rua. Levava pensamentos a ganharem volume, como nuvens."

in "Livro" de José Luís Peixoto

15 janeiro 2011

saboreie chocolate preto

45 Truques para viver melhor em 2011 
(destaque de capa da revista Notícias Magazine #972)
dica nº 3 - saboreie chocolate preto

Yeahhhh! Nessa alinho sempre.
I love chocolate preto!

Top Chocolate: Magnum Essence
Hummmm... que delícia!

08 janeiro 2011

(Madonna de Boticelli)

"O ar é de um amarelo escondido, como um amarelo-pálido visto através de um branco sujo. Mal há amarelo no ar acizentado. A palidez do cinzento, porém, tem um amarelo na sua tristeza."
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

mix (imagem+texto) by Moonshine

31 dezembro 2010

Natal urbano



(fotos by Moonshine)
Um passeio à chuva no Chiado, um chocolate quente na pastelaria Suiça, ver o Natal a cintilar na cidade e para terminar o dia... os meus flashes, claro.

26 dezembro 2010

É Natal!






















"Fui ver ao dicionário de sinónimos
A palavra mais bela e sem igual.
Perfeita como a nave dos Jerónimos…
E o dicionário disse-me NATAL.

Pergunto aos poetas que releio:
Gabriela, Régio, Goethe, Poe, Quental,
Lorca, Olegário… e a resposta veio:
Christmas… Noel… Natividad… Natal…

Interroguei o firmamento todo!
Cobras, formigas, pássaros, chacal!
O aço em chispa, o “pipe-line”, o lodo!
E a voz das coisas respondeu: NATAL.

Cânticos, sinos, lágrimas e versos:
Um N, um A, um T, um A, um L…

Perguntei a mim próprio e fiquei mudo…
Qual a mais bela das palavras, qual?
Para que perguntar se tudo, tudo,
Diz Natal, diz Natal e diz Natal?!"

Adolfo Simões Muller

17 dezembro 2010

Almoço dos SD


Almoço de Natal da team dos SD

os "IN" + os "OUT" + os "Standby" = 16

conviveram saboreando os paladares do Chimarrão seguindo-se a doçaria em ambiente de "bytes".   

14 dezembro 2010


capa de livro + marcador (made by Moonshine)
Presente para o BookCrosser secreto do Natal Artesanal 2010

08 dezembro 2010

Colégio de S. José e Santa Maria




Boa disposição e momentos revivalistas aromatizaram o menu do jantar dos ex-alunos do Colégio de S. José e Santa Maria, de Mangualde, que se realizou em Lisboa (7-12-2010).

05 dezembro 2010

Notícias Magazine

Gostei muito da capa da revista Notícias Magazine, de hoje. Cool!
Simples, sem artifícios, limpa, com poucas cores e básicas, explícita, de palavra única para interpretação rápida, de impacto imediato, etc. Em resumo, muito bem concebida, criativa sem precisar de floreados.  
A capa espelha perfeitamente os assuntos abordados nos artigos que se podem ler no interior acerca de "Ideias de uma década".